Cooperação e Integração para a Resiliência Local: A Territorialização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU a partir da Parceria São Lourenço do Sul–Santos
- Zelmute Marten

- 13 de ago.
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Embora a governança global atue para conter o aquecimento médio do planeta nos limites de segurança estabelecidos pelo Acordo de Paris, a aceleração da crise climática já se sobrepõe a esses marcos e se manifesta em ondas de calor e anomalias térmicas regionais de 4 °C a 5 °C acima das médias históricas. A maior frequência desses eventos extremos impulsiona o derretimento de geleiras e a elevação do nível dos oceanos, colocando sob pressão contínua a gestão territorial nos mais de 8 mil km da faixa litorânea brasileira e estabelecendo um desafio comum de resiliência e gerenciamento costeiro entre os municípios de São Lourenço do Sul e Santos.
Para fazer frente a esse desafio comum, São Lourenço do Sul e Santos estruturam um ecossistema de cooperação e atuam de maneira integrada, demonstrando que a governança multinível é a chave operacional para traduzir compromissos nacionais em proteção territorial e ampliar as perspectivas do multilateralismo global. Em diálogo permanente, ambos os municípios aperfeiçoam seus instrumentos locais de planejamento para apresentar a órgãos internacionais de financiamento, à União Europeia, ao Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e a fundos soberanos projetos territoriais focados na prevenção, mitigação e adaptação aos efeitos dos eventos climáticos extremos.
As assimetrias socioeconômicas, culturais e hidrológicas entre Santos e São Lourenço do Sul conferem força ao debate federativo, evidenciando que a territorialização dos ODS e do federalismo climático oferece respostas adaptáveis à diversidade real dos municípios brasileiros. Embora as dinâmicas hidrológicas divirjam — com a escala oceânica e portuária de Santos em contraste com o ambiente estuarino-lagunar de São Lourenço do Sul —, a convergência técnica se estabelece no paradigma do Gerenciamento Costeiro Integrado e na gestão de riscos climáticos, unificando os instrumentos locais de planejamento e resiliência comunitária.
Nessa cooperação, o modelo de referência constituído por Santos, por meio de seu Departamento Municipal de Implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, serve como base para o intercâmbio de experiências, permitindo que São Lourenço do Sul absorva esse conhecimento prático. Esse compartilhamento fortalece a trajetória do município gaúcho, que, em 2025, aprovou sua Lei Municipal de Implementação dos ODS e instalou a correspondente Comissão Municipal.
Assentadas no diálogo como premissa de gestão, as duas prefeituras mantêm o compromisso de envolver diretamente as comunidades locais na agenda climática e na aplicação dos ODS. Esse envolvimento se materializa no aprimoramento de instrumentos concretos de planejamento urbano e ambiental, como os planos de contingência, os novos planos diretores voltados à resiliência e, no caso de São Lourenço do Sul, na construção, inédita em sua história, do Plano Municipal de Drenagem e do Plano Local de Ação Climática (PLAC). Tais iniciativas mobilizam ativamente os atores da quádrupla hélice — empresas, universidades, governos e comunidades — em uma articulação interfederativa que integra os estados e a União.
Portanto, a integração entre São Lourenço do Sul e Santos, a partir da cooperação, consolida-se como uma premissa imprescindível para a superação dos desafios da agenda climática. O enfrentamento dessa crise só se concretizará a partir do momento em que a nossa geração — nas comunidades locais, nos estados, na União e na esfera global — superar o contexto social estruturado pela fragmentação e desenvolver o sentido pleno da integração e da solidariedade.
Trata-se de assumir um compromisso efetivo com a mitigação, a descarbonização, os empreendimentos de economia verde e a agroecologia, além de avançar, no âmbito da adaptação, no aperfeiçoamento de instrumentos que protejam as comunidades mais vulneráveis, situadas em regiões de risco e em unidades habitacionais expostas aos impactos de enchentes, secas, tempestades de granizo, vendavais e calor extremo.
Zelmute Marten Prefeito de São Lourenço do Sul




Três considerações.
A crise climática deixa evidente que nenhum município consegue enfrentar sozinho problemas que ultrapassam fronteiras territoriais. Nesse sentido você tem acertado de forma categórica a necessidade de cooperação. Essa é a melhor escolha política que você poderia fazer, parabéns!
A agenda climática precisa também ser uma agenda de geração de trabalho, renda e oportunidades. É mais do que necessário conciliar descarbonização, economia verde e desenvolvimento econômico com justiça social. Uma questão fundamental é garantir que a transição para uma economia mais sustentável não reproduza as mesmas desigualdades que historicamente marcaram nosso modelo de desenvolvimento!
Sobre quem deve estar no centro da adaptação, é o maior desafio. É necessário ltransformar os instrumentos de planejamento em proteção concreta para que…
Abordagem muito importante. Trabalho com produção de alimentos, agroecologia, e hoje estamos pensando em formas de evitar prejuízos nas propriedades por conta das ventanias e chuvaradas.
Grande trabalho.
Abraço
Marcio
FURG
Como consultora em Economia Azul, considero essa parceria entre São Lourenço do Sul e Santos um movimento estratégico para transformar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em ações concretas nos territórios.
Municípios conectados às águas precisam reconhecer que seus recursos hídricos não são apenas parte da paisagem: representam identidade, cultura, trabalho, inovação e inúmeras possibilidades de desenvolvimento econômico sustentável.
A cooperação entre cidades permite compartilhar conhecimentos, fortalecer comunidades e construir soluções para desafios comuns. Territorializar os ODS é compreender as características de cada lugar e, a partir delas, gerar oportunidades com inclusão, sustentabilidade e regeneração.
A Economia Azul é essencial nesse processo, pois demonstra que é possível desenvolver os territórios valorizando as pessoas e protegendo os ecossistemas que sustentam a vida…