• Zelmute Marten

O espírito do tempo

Em 31 de março de 1939, o governo britânico estendeu uma garantia à Polônia, considerada por Londres o próximo alvo das intenções agressivas do Führer, declarando que, “se qualquer ação ameaçasse claramente à independência polonesa, e se os poloneses achassem indispensável resistir a essa ação pela força, a Grã-Bretanha viria em seu auxílio”. Hitler era notabilizado pela característica do pensamento autoritário que odeia ser contrariado. Como era de prever, Hitler ficou furioso com o xeque-mate britânico. Quando foi informado da garantia, estava na Chancelaria do Reich em Berlim e, como relatou o almirante Wilhelm Canaris, mal conseguiu conter a sua irritação. “Hitler teve um acesso”, lembrava-se Canaris: “Com as feições distorcidas pela raiva, ele ia de um lado para outro da sala, dando murros na mesa de mármore, e despejou uma série de furiosas imprecações. Então, com um brilho sinistro nos olhos, rosnou a ameaça: ‘Pois eu vou preparar para eles uma poção do diabo’, disparou.


Foi nessa altura que a ideia de uma nova reaproximação com Moscou parece ter ocorrido aos líderes em Berlim. De início imaginada como um “petit jeu” para intimidar os poloneses, foi aventada pela primeira vez em meados de abril, com Göring e não Ribbentrop desempenhando o papel central. Em seu diário, o ideólogo nazista Alfred Rosenberg anotou que tinha conversado com Göring sobre a possibilidade de alinhamento como aquele. “Quando a vida da Alemanha está em jogo”, escreveu ele, “mesmo uma associação temporária com Moscou precisa ser contemplada”. Hitler também não demonstrou grande entusiasmo, lembrando a Ribbentrop que ele tinha “combatido o comunismo” toda a sua vida, mas, de acordo com Ribbentrop, mudou de opinião no começo de maio, quando viu na Berghof um filme de Stálin passando em revista na parada militar. Depois disso, afirmava Ribbentrop, Hitler ficou mais interessado e curioso, “afeiçoando-se” ao rosto de Stálin, e dizendo que o líder soviético parecia “um homem com quem seria possível negociar”. Com isso, Ribbentrop recebeu a permissão para prosseguir com as negociações. Restava saber se os soviéticos levariam a ideia a sério.


O espírito do tempo representa a interpretação de determinado período histórico. A leitura de circunstâncias conjunturais que caracterizam o contexto social estruturado. Os momentos descritos nos parágrafos anteriores carregam as marcas dos modelos totalitários. O tom tipificado neste registro é o da imposição. Absorvido pelo descolorido das ameaças, pela dor da morte e do genocídio. A face mais cruel da substituição da cooperação pela competição. Demonstrados pelos gestos belicosos. Desrespeitos entre as nações e as instituições. Fase sombria de um padrão de prepotência que eliminou vidas e o direito à opinião. As posições consideradas divergentes foram dizimadas, aniquiladas. As instituições receberam a sentença resultante do poder despótico. Os prejuízos foram incalculáveis. A estabilidade foi ceifada. A economia sob descontrole. A inflação ampliou desigualdades. O sofrimento das crianças e mulheres, foi constante. As imposições foram as mais graves, comprovando a inviabilidade da intolerância como regime de governo.


No nosso tempo, as posições consensuadas pelas nações desenvolvidas indicam a defesa intransigente dos regimes democráticos. A preocupação global está voltada para o combate às mazelas das diferenças sociais. O sentido dos líderes mundiais concentra-se na reversão das mudanças climáticas. Na consolidação de uma economia descarbonizada. Marcada pela criação de empregos verdes. Pelos esforços para recuperação da economia para superar a mais grave crise sanitária desta geração. A agenda prioritária é da integração entre países e povos. No estabelecimento de consensos internacionais em torno da inovação, educação, saúde, segurança cibernética, assistência social, ciência e tecnologia. São maciços os investimentos públicos em infraestrutura e no incentivo a micro, pequenas e grandes empresas, para retirar o mundo da retração resultante da pior crise econômica pós 1929. O desenvolvimento das energias renováveis está em profunda sintonia com estas premissas. O espírito do tempo está focado na recuperação da esperança, do sonho e da construção de um futuro baseado no respeito às liberdades democráticas.

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